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Opinião: Mesmo com novo Enem, vaga continuará com aluno de particular

Ana Cássia Maturano

Estamos nos deparando com um movimento que parecia quase impossível: mudar a atual forma de selecionar os estudantes para o ingresso nas universidades. A proposta do ministro da Educação, Fernando Haddad, é que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) substitua os vestibulares nas 55 universidades federais do país.

Para tanto, haveria uma reformulação do exame que constaria de 200 questões de múltipla escolha divididas da seguinte forma: linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza. E uma redação. A prova seria aplicada em dois dias. Até aí, muito parecida com o vestibular. Inclusive, a nota do Enem já é um dos critérios de seleção em algumas universidades.

A grande crítica que se faz aos vestibulares é que ele privilegia o conteúdo em detrimento do raciocínio. Com isso, criaram-se escolas cujo único objetivo é o de colocar os alunos nas faculdades mais concorridas (públicas). Já o Enem, prioriza as habilidades de raciocínio e a interpretação de texto.

Quem já passou por um curso preparatório para o vestibular, deve se lembrar daquelas musiquinhas para memorizar fórmulas matemáticas. A memorização é algo importante em provas assim.

O novo modelo propõe que as duas coisas sejam valorizadas na prova: o conhecimento e as habilidades de pensamento. Não consigo vislumbrar outra forma de se avaliar um aluno que não seja essa.

Com isso, espera-se que as escolas comecem a se transformar, trabalhando não só os conteúdos exigidos bem como a capacidade de pensar dos estudantes. É incrível, mas já ouvi várias pessoas dizerem ter aprendido a pensar depois de ingressarem num curso superior (após um mínimo de 11 anos nos bancos escolares).

A outra crítica que se faz aos vestibulares é de ser elitizado: estão dentro das melhores faculdades, na sua maioria pública, alunos que fizeram colégios caros e que poderiam pagar uma faculdade. Sobram poucas vagas para aqueles que realmente necessitam de um ensino gratuito.

Segundo dados do Enem 2007 em São Paulo, entre as 20 melhores escolas classificadas havia uma estadual e uma federal. Todas as outras eram da rede particular.

Novo conceito de ensino

Um dos objetivos desta mudança é, segundo o ministro Haddad, o de criar um novo conceito de ensino no país, deixando de favorecer os estudantes com poder aquisitivo maior. Ponto para a mudança.

No entanto, são as escolas particulares que têm maiores condições de acompanhar essa transformação. Elas vão correr atrás para continuarem colocando seus alunos dentro das faculdades. Agora com a vantagem para os alunos de desenvolverem seu pensar. O que não é tarefa fácil. Passar conteúdos é mais simples. Ou seja, tudo continuará como antes no acesso as faculdades.

Há uma necessidade fundamental e anterior à mudança no vestibular: a reformulação das escolas públicas de nível médio e fundamental. Inclusive para que os alunos provenientes delas possam competir em pé de igualdade por uma vaga nos bons cursos superiores. Sem isso, qualquer forma de selecionar vai parecer injusta.

Porém, não é na seleção que está a injustiça (não tem jeito, tem mais aspirantes que vagas nas universidades). A luta por um lugar ao sol sempre vai existir, assim como é na natureza (como é difícil a vida dos animais selvagens). Injustas são as condições de luta oferecidas de maneira desigual. A igualdade de condições está longe de existir no ingresso às faculdades. (Especial para o G1)

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)


 



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