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Novamente o ENEM - Gabriel Novis Neves

Todos sabem que não gosto de fazer perguntas. Ouço sempre com atenção aos que me procuram e, quando sinto segurança, prossigo o diálogo formulando perguntas para meu melhor entendimento. Fui convidado a participar de uma reunião com diretores de colégios privados sobre o ENEM. Aceitei por ser irrecusável. Ouvi com muita atenção a colocação de todos os presentes. Havia um ponto de convergência entre os educadores. Ninguém era contra o tal exame de seleção ao vestibular. O desconforto todo foi a proposta autoritária do MEC em implantá-lo já.

Ninguém no Brasil é contra a melhoria do ensino. Todos sabem que estamos muito mal no ranking mundial. Em época de campanhas políticas os candidatos dizem que a educação é prioridade nacional. Passadas as eleições a educação é engolida pelos defensores do progresso. O compromisso da educação é com o desenvolvimento. E neste choque a educação sempre foi a perdedora. O governo logo coloca a culpa da péssima qualidade da nossa educação nos professores.

Nas últimas eleições presidenciais tivemos um candidato de uma proposta só: fazer um a revolução na educação brasileira. Obteve dois por cento dos votos. E o brasileiro sabe que sem educação não adianta conceder incentivos fiscais aos industriais, aos produtores rurais, perdoar dívidas de banqueiros mesmo quebrando o Brasil, fazer PAC e muito menos trazer a Copa do Mundo para cá. Precisamos de coragem e “saco roxo” para endividarmos e resolvermos o problema da nossa educação que não suporta mais lero-lero nem conversa fiada. Os nossos bisnetos e tataranetos pagarão a conta com satisfação porque usufruíram da dívida. Hoje pagamos a dívida dos outros e o máximo que nos é dado é reconhecer a riqueza de meia dúzia de apaniguados. Isto dói e muito. Não falo nem em injustiça social, falo em dor. Proponho um linchamento destas idéias criminosas que atingem, sobretudo, os nossos jovens e a nossa própria soberania.

Voltemos à proposta dos engravatados de Brasília sobre o novo vestibular unificado. Este massacre tem que começar este ano para justificar ao Brasil e ao mundo que o governo está atento e reconhece o fracasso da nossa educação. Esta inovação com o apoio da mídia poderá alavancar a candidatura da escolhida pelo “cara”.  Nenhum parlamentar de Mato Grosso se posicionou sobre este sério assunto. E olha que temos professores e pais por lá. Qual o motivo do silêncio? Educação não dá voto? Aqui na capital a preocupação maior é com a demolição do Verdão e construção do novo estádio de futebol estilo europeu. A outra preocupação depende ainda de resultados laboratoriais do DNA para saber quem trouxe a Copa para Cuiabá. O número de candidatos é grande...

Das cinqüenta e cinco Universidades Federais autorizadas pelo MEC trinta e seis vão utilizar o ENEM de alguma forma e farão os seus próprios vestibulares. O peso das notas do ENEM deve ter um valor pequeno. Cinco Universidades Federais ainda não decidiram, a quatro meses das provas, se aderem ou não. Apenas catorze usarão exclusivamente o ENEM. Os dados acima são do próprio MEC. Os problemas que a pressa está exigindo das escolas chegam às raias da irracionalidade. Sem nenhum preparo e treinamento, Mato Grosso terá sessenta e quatro cidades  para a realização das provas. Cinco milhões de alunos de todo o Brasil poderão disputar as vagas da UFMT. A alternativa melhor que o aluno daqui terá para ocupar uma vaga em curso superior, será no estado de menor índice de desenvolvimento humano do Brasil. Estudar nas melhores Universidades Federais nem pensar! Os grandes perdedores com essa pressa desesperada serão os alunos pobres e, a nossa UFMT só existe porque os alunos pobres sempre acreditaram nela. Com certeza agora serão expulsos de lá.

E a culpa, mais uma vez, será dos nossos “péssimos professores que só pensam em aumentar os seus salários,” e não na ausência do estado para recolocar o professor no topo da pirâmide social oferecendo-lhes condições de trabalho e salários dignos. Sou contra o ENEM da pressa.

Gabriel Novis Neves é médico.

 



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